Pesquisadores da Universidade Columbia (Estados Unidos) afirmaram que uma parcela significativa das negociações na Polymarket pode ser resultado de wash trading.
Essa é uma prática em que usuários compram e vendem repetidamente os mesmos contratos, para inflar artificialmente o volume de transações.
O estudo, divulgado há poucos dias na plataforma acadêmica SSRN, analisou a atividade de 1,26 milhão de carteiras da Polymarket, e identificou que 14% delas exibiam padrões suspeitos.
Segundo os autores, essas contas analisadas negociavam entre si com frequência, mas quase nunca com outros participantes.
Prática distorce percepção de volume
A pesquisa estima que 25% de todo o volume negociado na Polymarket nos últimos três anos foi gerado por esse tipo de operação.
Em determinados períodos, a atividade artificial chegou a representar 60% do volume semanal, em dezembro de 2024, caindo para 5% em maio de 2025, e voltando a subir para 20% em outubro.
No total, cerca de US$ 4,5 bilhões em negociações podem ser classificadas como wash trading.
O wash trading é proibido em mercados regulados, pois cria a ilusão de liquidez e pode distorcer preços e indicadores de atividade.
Nessa prática, o mesmo usuário, ou um grupo deles, compra e vende ativos entre contas relacionadas, sem risco real de mercado.
Embora comum em exchanges cripto não reguladas, a manipulação preocupa pesquisadores e reguladores.
Os algoritmos criados pela equipe de Columbia identificaram, na Polymarket, carteiras que realizavam milhares de transações entre si, com lucros e perdas mínimos.
Em alguns casos, a mesma conta negociava o mesmo contrato dezenas de milhares de vezes.
De acordo com Yash Kanoria, professor da Escola de Negócios de Columbia e um dos autores do artigo, ‘o wash trading não adiciona liquidez nem informação ao mercado’.
Ele defendeu que distinguir o volume autêntico do artificial é essencial para medir a real força da plataforma.
Os pesquisadores não apontam envolvimento direto da Polymarket nas operações suspeitas. No entanto, destacam características estruturais que facilitam o problema:
- ausência de verificação de identidade (KYC);
- inexistência de taxas de transação;
- e uso de stablecoins que permitem movimentações rápidas e anônimas entre múltiplas carteiras.
Incentivo para manipulação
O estudo sugere que parte dos usuários pode estar realizando wash trading para se qualificar para airdrops, distribuições gratuitas de tokens que recompensam atividade na plataforma.
O doutorando Allen Sirolly, coautor da pesquisa, afirmou que o comportamento pode estar ligado à expectativas de um token próprio da Polymarket.
‘Não sabemos o que motiva o wash trading, mas é possível que esteja relacionado à agricultura de airdrops’, disse Sirolly
Em outubro, o fundador da empresa, Shayne Coplan, insinuou em redes sociais a possibilidade de lançar um token.
Esse tipo de expectativa costuma gerar corridas de usuários em busca de maior volume de negociação, na esperança de receber recompensas futuras.
Os autores observaram que o potencial de manipulação varia entre mercados:
- em apostas esportivas, até 45% do volume total foi classificado como wash trading;
- em mercados eleitorais, o percentual ficou em 17%;
- em mercados de política e cripto, em 12% e 3%, respectivamente.
Em março de 2025, a manipulação chegou a 95% das apostas eleitorais e a 90% das esportivas, segundo o relatório.
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Impactos no mercado de previsões
A Polymarket permite que usuários apostem em resultados de eventos políticos, esportivos ou econômicos, como eleições ou decisões de bancos centrais.
O modelo ficou conhecido por gerar indicadores de ‘sabedoria das multidões’, já que as probabilidades de cada evento se baseiam nas apostas dos participantes.
Contudo, o estudo indica que o volume inflado compromete a credibilidade desses sinais. Se parte significativa das negociações for fictícia, o mercado deixa de refletir o sentimento coletivo real.
Sirolly destacou que a Polymarket poderia adotar a metodologia usada na pesquisa para detectar e excluir carteiras suspeitas. ‘A capacidade de identificar o wash trading é importante para a saúde e o crescimento do mercado de previsões’, afirmou o pesquisador.
Histórico e crescimento da Polymarket
A Polymarket movimentou mais de US$ 18 bilhões desde sua criação e atraiu cerca de 1,3 milhão de usuários, segundo dados do Dune Analytics.
A empresa recebeu, neste ano, um investimento de até US$ 2 bilhões da Intercontinental Exchange (ICE), controladora da Bolsa de Nova York.
A injeção de capital avaliou a startup em US$ 9 bilhões, e transformou Coplan, de 27 anos, em um dos mais jovens bilionários do setor cripto.
Apesar do crescimento, a empresa tem enfrentado barreiras regulatórias.
Em 2022, por exemplo, a Polymarket pagou US$ 1,4 milhão à Commodity Futures Trading Commission (CFTC), dos Estados Unidos. Isso ocorreu após acusação de operar uma bolsa de derivativos sem registro.
O acordo a obrigou a fechar o acesso a clientes dos Estados Unidos. Mesmo assim, investigações recentes do Departamento de Justiça e da própria CFTC indicaram que alguns traders dos EUA ainda conseguiam acessar a plataforma.
Em julho de 2025, a empresa anunciou a aquisição da QCX, uma exchange registrada na CFTC, o que pode viabilizar seu retorno parcial ao mercado dos Estados Unidos.
A Polymarket também enfrenta restrições na Europa. O serviço foi bloqueado na França em 2024 e, na semana passada, recebeu proibição na Romênia por operar sem licença de apostas.
Contexto mais amplo
A prática de wash trading não é exclusiva da Polymarket. Estudos anteriores apontam que até 70% do volume em exchanges não reguladas pode vir desse tipo de manipulação.
A ausência de fiscalização e a possibilidade de operar anonimamente tornam o ambiente favorável a distorções.
Esses mercados dependem da confiança dos usuários. Se o volume deixa de representar a atividade real, a credibilidade do modelo se torna dúvida.
Rajiv Sethi, coautor do estudo
Os autores do novo artigo ressaltam, no entanto, que suas conclusões são estimativas, não provas definitivas.
Ainda assim, os resultados reforçam preocupações sobre a fidedignidade dos volumes declarados por plataformas de previsão baseadas em blockchain.
Próximos passos
A Polymarket não comentou oficialmente o estudo. Em nota breve, um porta-voz informou que a equipe está revisando a pesquisa.
Enquanto isso, o debate sobre a transparência nos mercados de previsão cresce. Pesquisadores e investidores pedem mecanismos automáticos para identificar negociações artificiais e proteger o funcionamento dessas plataformas.
Para Kanoria, o estudo pode servir como um ponto de partida para maior autorregulação. ‘Esperamos que a Polymarket receba bem a análise. Separar o volume autêntico do inautêntico é algo valioso para o futuro do setor’, argumentou.
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