As corretoras Binance e OKX decidiram disputar espaço no bolso do brasileiro com uma mesma aposta: cartões de pagamento em criptomoedas e stablecoins.
Os dois lançamentos aconteceram praticamente ao mesmo tempo, e reforçam a tendência de internacionalização das exchanges no mercado local.
A novidade marca uma nova fase para os criptoativos no Brasil. Se antes o debate girava em torno da compra e da custódia, agora a discussão é sobre usabilidade. Em outras palavras, como gastar cripto no dia a dia.
OKX aposta em conta global e cartão Mastercard
A OKX apresentou seu OKX Card, atrelado ao lançamento da conta global OKX Pay. O produto usa a bandeira Mastercard e permite pagamentos em qualquer estabelecimento da rede.
O cliente pode carregar o cartão com stablecoins, como USDT e USDC, ou outras criptomoedas disponíveis na corretora.
O modelo elimina uma das maiores barreiras para o uso de cripto em pagamentos: a necessidade de o lojista aceitar ativos digitais. O comerciante recebe em moeda tradicional, enquanto a conversão é feita em segundo plano.
Além disso, a conta global chega com uma vantagem competitiva importante. Como as compras são feitas em stablecoins, não há cobrança de IOF, nem incidência de spread cambial. O usuário paga o valor do dólar de forma direta, sem taxas adicionais.
Segundo Haider Rafique, CMO global da OKX, o produto se inspira no impacto que o Pix teve no Brasil. Ele falou sobre isso durante o evento Token2049, em Singapura:
Vimos como o Pix transformou o ecossistema financeiro do país. No entanto, ainda faltam soluções eficientes para gastar, investir e enviar recursos para o exterior.
O cartão estará disponível para os brasileiros por meio de lista de espera, a partir de novembro.
Binance mira cashback e consolidação no Brasil
A Binance não ficou atrás. Também lançou o Binance Card, igualmente emitido com bandeira Mastercard.
O produto segue a mesma lógica do cartão da concorrente: compras e saques podem ser realizados diretamente com o saldo em cripto da carteira do usuário.
O diferencial está no cashback de até 2% sobre as compras. Porém, por ser um cartão emitido localmente, está sujeito à incidência de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
A estratégia mira o consumidor que já se acostumou a programas de pontos e recompensas no mercado tradicional.
Para Guilherme Nazar, vice-presidente regional da Binance para a América Latina, o Brasil ocupa um lugar estratégico:
O cartão se soma ao portfólio completo de soluções de pagamento em cripto já disponíveis aos usuários brasileiros.
A Binance já vinha testando outras formas de integração entre cripto e pagamentos, mas, com o cartão, reforça seu interesse em fidelizar a base local.
Por que os cartões cripto ganham força agora
A explosão dos cartões de débito cripto não é coincidência. Eles se tornaram a forma mais prática de integrar ativos digitais ao sistema financeiro, sem criar atrito com lojistas.
Com eles, o usuário mantém saldo em stablecoin — normalmente lastreada em dólar — e pode gastar em qualquer lugar que aceite a bandeira do cartão. Não há burocracia, e a experiência é semelhante ao uso de uma conta digital comum.
Outro fator decisivo está nos custos. Ao evitar IOF e spreads cambiais, esses cartões oferecem uma alternativa mais barata para quem viaja ou faz compras no exterior.
No Brasil, onde o câmbio historicamente pesa no bolso do consumidor, esse benefício atrai cada vez mais usuários.
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Outros players aquecem o mercado
A movimentação da Binance e da OKX não acontece em um vácuo. Outros projetos já testam ou oferecem soluções semelhantes no país.
- O Kolo Card, por exemplo, se posiciona como alternativa de pagamento global para quem já vive no ecossistema cripto. Ele também aposta em stablecoins como base e foca em integração rápida com exchanges e carteiras.
- O Redot Pay segue caminho parecido, mas com ênfase em soluções corporativas. A empresa busca atender empresas que querem pagar fornecedores ou funcionários com stablecoins, sem enfrentar os custos do câmbio tradicional.
- Já a Kast se apresenta como uma fintech com apelo de simplicidade. O cartão é voltado ao consumidor final que busca apenas gastar seus criptoativos sem complicações técnicas. A proposta lembra a das neobanks que popularizaram cartões digitais no país.
- Outro nome que tem chamado atenção é o Offramp, que aposta na facilidade de conversão de cripto em moeda fiduciária. A ideia é oferecer saques e pagamentos instantâneos, reduzindo a fricção que historicamente afastava usuários desse tipo de produto.
- E não dá para ignorar o Bybit Card. Assim como Binance e OKX, a Bybit também trabalha com bandeira global e já conquistou parte do público que prefere dividir seu portfólio entre várias exchanges.
Esses concorrentes mostram que o mercado brasileiro virou palco de disputa internacional. Com um público jovem, conectado e aberto à inovação financeira, o país se tornou prioridade.
Impacto para o consumidor
Para o usuário, a chegada desses cartões abre um leque de possibilidades. O consumidor pode manter parte de sua reserva em cripto e, ao mesmo tempo, gastar no mundo físico ou digital sem precisar vender ativos manualmente.
Além disso, a competição tende a beneficiar o público. Cashback, isenção de taxas e integração com carteiras digitais são recursos que devem se multiplicar conforme as empresas busquem diferenciação.
A médio prazo, a tendência é que mais fintechs locais e internacionais entrem no jogo, aproveitando a lacuna deixada pelos bancos tradicionais.
O futuro dos cartões cripto
O avanço dos cartões de stablecoins no Brasil indica uma mudança estrutural. As criptomoedas deixam de ser vistas apenas como reserva ou investimento e passam a ser tratadas como meio de pagamento acessível.
Ainda existem desafios regulatórios e tributários, mas a estratégia de se apoiar em stablecoins contorna parte dos obstáculos. A isenção de IOF, por exemplo, pode acelerar a adoção entre viajantes e consumidores que compram em sites internacionais.
Com Binance, OKX e outros players em campo, o setor deve viver uma fase de forte competição.
No fim, os cartões cripto prometem transformar a relação do brasileiro com as moedas digitais. De investimento de nicho, eles podem se tornar parte do cotidiano — tão comuns quanto os cartões de débito que já estão na carteira da maioria.
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